E o que fazer?
Nas últimas 72 horas venho perdendo o sono para tentar encontrar uma solução que está distante de meu alcance, alfabetizar um aluno surdo que tem 12 anos de idade. Será possível visto que eu não tenho nehuma experiência com linguagem de sinais ou quaisquer contato anterior com uma pessoa surda... Tenho um gato surdo e sempre brinquei que escreveria um livro sobre ele, sobre sua solidão e como o silência pode ser desesperador para nós que já ouvimos... Será que ele sente este desespero, ou será que porque nunca ouviu não sinta falta disto? Estes questionamentos agora são mais pertinentes que nunca. Em poucos dias recebo duas crianças que precisam de auxílio.
Recebi uma menina de sete anos, parece que não cresceu, veste roupas de menino e quase não fala. Sua irmã está na sala ao lado, é mais velha e também se encontra no 1º ano. Descobri que a irmã da outra turma foi vítima de abuso sexual. Daí muitas explicações para as reações da minha aluninha e mais questionamentos: será que só a irmã sofreu estas agressões? Será que ela também não tem alguma experiência nisso e com isto? É um outro caso para investigar. Já arrecadei com as mães de meus alunos muitas roupas de meninas para organizarmos o guarda-roupas dela. Vieram sapatos, sandálias, roupas de inverno e verão. Amanhã mandarei o bilhete para a mãe perguntando se ela não se importa de ganhar umas roupinhas para a filha, sei lá, já vi gente negar o que não tem por orgulho (sabe-se lá de que).
O garoto participou da aula, feliz, entre a vontade de ir para a turma de 4ª série que "cursava" e a vontade de ficar no meio de um montão de pitocos que só correm de um lado para o outro. Pelo visto este menino será meu estudo de caso. Vou iniciar um trabalho com uma espécie de diário dele, contando o que eu fiz, o que ele fez e o que nós estamos fazendo juntos para que ele seja feliz... Sim, porque não vejo em mim capacitação para trabalhar de forma bilingui tendo LIBRAS como primeiro idioma dele, conforme tudo que li e estudei neste final de semana.
Conversei hoje, na Secretaria de Educação onde trabalho, com o pessoal que trabalha com crianças que tenham necessidades especiais e percebi que a rede municipal tem escolas conveniadas para surdos (que são muito poucos), mas que são atendidos em Porto Alegre de uma forma que exista a perspectiva de avanço, de sentir-se igual em meio as diferenças. Eles ganham até passagem para frequentar a escola. Como meu aluno é da rede estadual terei que encontrar uma saída. Não posso permitir que esta criança fique no lugar errado por burocracia, isto não é inclusão, mas exclusão da forma mais cruel, para com todos nós!
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A correria diária impede meus relatos mais frequentes neste dossiê, contudo aos poucos vou atendendo às solicitações e questionamentos visando aprender mais e criar elos com pessoas que possam ser uma luz ou fonte de inspiração para meu trabalho.
Algumas novidades já respondendo a alguns questionamentos da Simone: A menina que citei na postagem anterior está uma graça e está ficando cheia de graça. Já consigo ouvir sua voz tímida de vez em quando. Ela está muito feliz com a quantidade imensa de roupas e calçados que não param de chegar das coleguinhas. A mãe desta criança é a única das mães que não conheço. A menina falta bastante a aula e nada de justificativas nem por escrito! Ela tem grandes dificuldades para desenvolver algumas das competências propostas para este início de vida escolar como escrever seu próprio nome por exemplo, contudo já avançou muito na questão pessoal, tem amiguinhas na turma, é bem quista por todos e já sorri coisa que eu estava achando muito difícil de acontecer. Estamos trabalhando muito juntinhas e sempre que posso paro em sua mesa para conversarmos sobre as hipóteses que ela tem de tudo que seja possível exprimir com palavras. A questiono da vida, das pessoas, das coisas, das atividades, por que disto ou daquilo. Creio que num espaço de tempo maior os avanços sejam mais constantes.
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Em relação ao aluno surdo a situação é mais triste e desesperançosa. Sinto-me cúmplice de um crime institucional, emocional, governamental e sei lá mais o que poderia anotar. Não há possibilidade de desenvolver as potencialidades deste aluno na minha sala de aula. É quase um grito de socorro este meu desabafo.
Andei falando com a colega Magali que cursou três semestres de LIBRAS em Porto Alegre e percebi que se é difícil comunicar-se com conhecimento torna-0se impossível fazê-lo na ignorância. Tenho lido muitos materiais que só afirmam o quanto estamos omissos (eu, escola e Coordenadoria de Educação). Aguardo desde a primeira semana uma posição sobre este caso e nada. Sem respostas e de preferência que não aja muitas perguntas. Já investiguei no município como são atendidos ou encaminhados os alunos surdos de Alvorada e fiquei muito feliz de saber que esta vergonha de abandono não ocorre na esfera municipal. As crianças surdas recebem auxílio transporte e se deslocam para uma escola em Porto Alegre (próxima de Alvorada) onde estudam LIBRAS ou seja, tem atendidas a sua necessidade de ensino da língua que para eles é a primeira.
Já pensei até em transferir este aluno para uma escola municipal e solicitar o encaminhamento para a escola de LIBRAS. Comentei com a supervisora da escola, mas ela ainda aguarda notícias da 28ª CRE...
A mãe do menino só sorri, é uma pessoa muito simpática que expresa no rosto a frase "Não te preocupa professora, ele está feliz de estar aqui" ou ainda "que bom que ele está aqui e não só na rua". Não vejo a menor vontade da mãe buscar ajuda para seu filho. Ela não acredita que ele possa ter uma vida normal, trabalhar, namorar, ter uma casa.
A relação dele com os outros alunos está ficando complicada. A sexualidade aflorada dele me preocupa muito e não sei lhe explicar o que sinto.
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Comments (2)
Simone Ramminger said
at 5:10 pm on May 16, 2009
Tati relatas tuas angústias e questionamentos em relação a dois novos alunos da tua sala de aula.
Como a mãe da menina recebeu as doações? Chegaste a conversar com ela sobre a menina? Descobriste porque a menina veste roupas de menino? O que tens observado no processo de aprendizagem da menina?
Esse é o primeiro caso de aluno surdo na tua escola? Achei bem interessante a tua idéia de fazer um diário contando a tua experiência e aprendizagens com ele. Quem sabe mais tarde não publicas um artigo com a tua experiência?
Viste que ao procurar a Secretaria de Educação para obter informações já iniciaste a pesquisa solicitada na unidade 3, sobre os serviços especializados no teu município?
Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE
maurentezzari@... said
at 10:12 am on May 29, 2009
Olá Tatiani, é possível perceber que tu não és uma professora conformada e isso é muito bom. A ideia do caderno de registros é muito boa e certamente vai te dar muitos elementos para pensar a tua ação pedagógica. Mesmo te snetinod despreparada para essa situação, estás buscando alternativas. Transferí-lo para uma escola municipal, na qual terá mais recursos para atender ao seu caso, seja uma estratégia interessante. O teu relato está bastante detalhado. É possível imaginar o que se passa em sala de aula. Um abraço, Mauren
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