Neste espaço vou registrar minhas reflexões acerca da convivência com a disciplina proposta e as inúmeras situações cotidianas que tratam desta temática tão delicada e ainda marginalizada que nos remete à vivência das crianças que possuem necessidades educacionais especiais ou quaisquer tipo de deficiências que promovam a estas estereótipos como coitadinha e incapaz o que só acarreta e aprofunda a situação de exclusão social.
Minha experiência com o trabalho e até na vida pessoal com pessoas que tenham necessidades especiais mais acentuadas como a convivência com cadeirantes ou portadores de síndromes, por exemplo, é muito limitada. tenho como formação o curso de Magistério, que não tinha como meta preparar o profissional para a inclusão.
Ano passado numa escola estadual onde trabalhava como supervisora fiquei uma semana com uma turminha de primeiro ano que tinha uma coleguinha com Síndrome de Down. Era meu primeiro contato com uma criança com este tipo de necessidade educacional. Lembro-me de como ela gostava de beijar todo mundo! E amava pintar, mas não se concentrava. Nada a impedia de sair andando ou quando percebia estava fora da sala querendo ir ao banheiro... O interessante é que o banheiro acabava na frente do barzinho da escola, ela também adorava comer, comer, comer. Percebi que a sexualidade é muito aflorada mesmo nesta idade entre sete e oito anos, tive receio de que a menina até pudesse se masturbar na sala devido à intensidade como provocava seu corpo e como se tocava sem pudor.
Ainda na mesma escola um aluno que agredia os professores (inclusive eu) e que só gritava, corria na sala, se batia na parede e ficava o tempo todo falando "cala a boca" para todo mundo foi uma outra experiência, esta sim bem traumática. Este aluno acabou sendo transferido para uma escola do município que possuia uma turma de Classe Especial. Não sei direito oq ue tinha, mas lembro-me que tomava medicamentos à noite que deveriam ser dados ao dia. Perguntei para a mãe como podia ser aquilo e ela me disse que fazia isto para poder dormir porque senão ele não parava de gritar (bem como fazia na sala de aula) e ficava agressivo. Como a mãe precisava sustentar a família com seu trabalho resolveu por conta alterar o horário da medicação.
Em seguida saí da escola e fui assumir minha sala de aula onde também neste ano estou com um primeiro ano do ensino de 9 anos e sem possuir nenhuma criança portadora de alguma deficiência, mas tenho uma menina que acaba de chegar e que possui visivelmente graves problemas emocionais e educacionais. Como não sou profissional da área creio que compete a mim fazer algumas testagens e tentar averiguar como é a sua vida, visto que quem matriculou a pobre criança foi uma senhora que não aguentou ver ela e os irmãos abandonados sem escola. Não conhecemos a mãe e a criança chegou para seu primeiro dia de aula sem nada nas mãos, nem lápis, nem lanche, nem brilho nos olhos...
Pânico:
As coisas são como deveriam ser... Estou em pânico! Um dia após realizar o relato que consta acima recebi um presente em minha sala de aula. Um menino de doze anos que é surdo e frequentava uma turma de quarta série tem sua vida "ajeitada" e passa a fazer parte de minha lista de chamada. Estou sentindo um misto de medo com impotência. Não sei por onde começar ou como começar. Busquei neste final de semana inúmeros sites que pudessem me auxiliar em como trabalhar com esta criança que tem uma linguagem própria de sinais e sabe alguma coisa de LIBRAS, eu por vez, não sei nada de LIBRAS e vejo-me amarrada porque não há como fazer um trabalho oral com esta criança. Como fazer? Como permitir que uma criaturinha tão especial fique participando de um mundo sem significados para ela? Por onde começo? Preciso de ajuda... Urgentemente.
Não me importei em não conseguir realizar a tarefa do fórum que me foi solicitada bem como a continuação dos relatos neste espaço. No momento me importo em saber como posso aprender a ensinar algo com o qual nunca tive contato. Farei as postagens conforme esta nova tarefa de vida possa ser conciliada. Meus alunos são a prioridade e a eles devo respeito e dedicação.
Creio pois que este dossiê terá um outro significado a partir de agora, a vivência é a melhor aprendizagem que se pode ter!
_____________________________________________________________________________________
Este menino sobre o qual fiz o relato acima não tem um atendimento profissional fora da escola (e nem na escola diga-se de passagem). Ele recebe quinzenalmente a visita de umas senhoras que são evangélicas e pregam sua crença ajudando os outros. Elas lhe deram um material de LIBRAS, ele tem um caderno com algumas atividades que não consigo entender se são feitas só por ele ou se recebe ajuda. A família é muito desleixada e ficou muito claro que se satisfizeram por ter este garoto na escola, já está bom e o que vier é lucro.
Consegui alguns bons materiais, mas não consigo aprender a comunicação com as mãos. O tempo é muito escasso e tenho uma dificuldade enorme em compreender desenhos (coisa que se reflete bem na minha incapacidade de fazer origamis a partir de passo-a-passo por exemplo). Acho que estou muito mais desmotivada doq eu o garoto. Ele trabalha na aula, vem todo o tempo mostrar suas atividades e fica olhando os colegas na hora de cantar, brincar com palavras e jogos orais. Me parte o coração vê-lo bater palmas quando todos batem e pular quando os outros assim o fazem, sem contudo esboçar tristeza ou diferença. Creio que minha dor seja legítima, algo indescritível e que está prejudicando demais minha saúde. A impotência em fazer melhor é o que mais me desanima.
__________________________________________________________________________________________
Resolvemos na turma que vamos semanalmente aprender LIBRAS juntos, já estou providenciando cópias das folhas de uma apostila e vamos todos aprender uns com os outros a fazer os sinais. Meu aluno sabe muito pouca coisa em LIBRAS, mas acho que será um fator de encorajamento para todos nós.
___________________________________________________________________________________________

Esta é minha pitoca, aquela que não sorria...
Creio ser a primeira vitória do ano!!!!!!!
Muito bom poder relatar mudanças de comportamentos que acarretam na melhoria da vida de uma criança.
Ela evadiu a escola no ano passado. Estou muito preocupada com o número de faltas deste ano também. Não traz justificativas ou bilhetes da mãe. Quando mando alguma coisa para casa às vezes vem assinado como a autorização da foto neste espaço, não sei bem se a mãe se preocupa com as meninas. Descobri pela ficha dela que a mãe é cozinheira de um asilo.
______________________________________________________________________________
Comments (3)
Simone Ramminger said
at 12:17 am on May 6, 2009
Tatiani passei aqui para ver teu dossiê e não encontrei nenhuma atividade ainda. Aproveita essa semana de recuperação para fazer e postar as atividades 1, 2 e 3 também. Se precisares de ajuda, faça contato. Estou a disposição.
Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE
Simone Ramminger said
at 10:36 pm on May 8, 2009
Tatiani hoje passei pelo teu dossiê de novo e vi que fizeste a postagem da primeira atividade. Parabéns! Ao ler o teu relato, observei que procuraste preservar a identidade dos alunos. Isso é muito importante. Sabes como era o trabalho realizado com a menina que tinha Síndrome de Down? Como era a comunicação da escola com a família do aluno que agredia os professores? Em que situações aconteciam as agressões? Sabes como era a relação dele com a família, com a mãe?
Sobre essa menina que é tua aluna, que atitudes ela apresenta que te levam a pensar que ela tem problemas emocionais e educacionais? Quem é essa senhora que matriculou ela na escola? Chegaste a conversar com ela? Quem sabe podes ajudar essa menina a encontrar motivos para seus olhinhos brilharem...
Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE
Simone Ramminger said
at 4:33 pm on May 16, 2009
Tati pelo que vejo no teu relato tens um grande desafio a enfrentar. É normal ficares preocupada, afinal o novo sempre nos assusta um pouco. Não é uma tarefa fácil nem existe uma fórmula para lidar com essa situação. Conforme está relatado no artigo da nova escola: http://revistaescola.abril.com.br/inclusao/educacao-especial/falar-maos-432193.shtml , alguns professores estão tendo essa experiência, não és as única. Terás que fazer algumas adaptações nas tuas aulas.
Vai ser necessário desenvolveres uma forma diferente de comunicação com o menino e ir aprendendo Libras aos poucos. Ele não faz leitura labial? Já conversaste com a família desse menino surdo? Sabes como ele se comunica em casa? Ele tem algum atendimento especializado fora da escola? Podes também trocar idéias no forum com as tuas colegas sobre essa nova experiência. Vai ser muito rico.
Um abraço, Simone
You don't have permission to comment on this page.